segunda-feira, 24 de maio de 2010

lá: ( leão, jubas do leão da areia.
também, arreios dos cavalos alados )
: o espírito do deus de Deus
multiplica lendas, múltiplas lendas,
sobre areias, o tempo ...
difícil matemática.
( sons, muitos, reverbero como
nuvens sobre nuvens ( entre minaretes,
a voz ). sins caem ( mil ) quando
quase a noite chegando, alas alagam
os céus.
só, observo – olhos abertos como um
servo de deus.

1.

ar-
risca
na né-
voa uma
crista estranha
malha de água
e luz
(um
sideral
rio vegetal
corre cachos-
caracóis,
voltas-voltas,
corre corrente
cai
na rede do redemoinho verde
palavras do nada-existir de dentro
da boca do beijo do gosto
de cigarro do som da cigarra
que agarra o silêncio
e amarra a poesia

terça-feira, 18 de maio de 2010

Toscana

Terra crua,
revolta,
cheiro molhado, morno,
esperando o ar de outono
cobri-la de orvalho fresco.
Peço por deitar meu corpo
na tua carne aberta,
peço por sentir o sopro
da tua pele na minha.

e assim, Terra,
deitado no meio do mundo,
dentro de teu giro no vazio escuro,
me sinto sozinho
em ti…

1

Un’altra volta lei è tornata.
Come un nuovo profumo: mille petali di bianchi fiori
Cadendo in volto mio ,
Il fulgore d’una profonda luce,
Lacrime de luce.

2.

quando penso você
não é um pensamento:
tem carne, cor, cheiro,
cabelos entrelaçados em luz;
criaturas sozinhas,
filhos invernais,
sóis, marés,
olhos lunares, sedes seculares.
Tem chuva evaporando-se
lentamente das pedras quentes
em uma tarde de verão,
tem seiva escorrendo qual mel
do tronco de uma árvore antiga,
dorso de homem montado em corcéu.
Tem pés descalços, perfumes silentes,
tem sua voz engendrando tão somente
os dedos em meu peito,
na carne dos meus sentimentos...

3.

à tarde, cheiro de inverno,
sol prata entrando quieto pela janela,
tecido de lã enrolado pelo dorso deitado,
névoa de minérios despertos sobre a mesa de café,
espelhos que refletem o corredor no labirinto do tempo,
roupas caídas pela tépida madeira,
passos nus,
abraço calado.