quarta-feira, 31 de outubro de 2007

chuva

Escrever é uma busca por encontrar palavras que digam o indizível.
Sempre falta, sempre é intangível, sempre o sentimento transborda do copo-palavra...
mas do líquido que é contido neste vidro ou cristal, bebemos e nos embriagamos ...
Este texto veio ontem e é uma tímida celebração da vida, esta chuva tão boa de se tomar.

"Eu me sinto vivo, quando no meu bairro,
no final da tarde de verão , a chuva vem chegando.
O vento fresco solta as folhas mais antigas e
carvalhos calados descançam o corpo.
A cor do dia se transforma de repente,
os cachorros latem e os sons parecem distantes…
É doce ver as moças a andar, ver o ritmo das saias
cadentes pelo jeito que só uma brasileira sabe andar,
os pés descobertos, as sandálias de dedo,
seus passos procurando abrigo, os risos soltos …
Tudo parece tomar uma dimensão,
tudo se torna finalmente real.
As pedras, as pequenas plantas que crescem em torno delas,
os telhados antigos, o canteiro de rosas, os olhos das crianças,
a palavra contida… tudo se torna real …
E nem é preciso chover…
São estes pequenos minutos antes da chuva que me dão uma verdadeira sensação de viver.
Tudo fica quieto, tranquilo, pois todos param,
toda a cidade espera o que virá, o futuro nunca esteve tão próximo…
As árvores têm as raizes mais densas,
os galhos esperam felizes a água fresca,
as mulheres esperam com tesão a água que molha seus pequenos vestidos de tecido pobre e revelam os seios,
as ancas, o sexo molhado pelo prazer da chuva que virá.
Os cachorros loucos uivam pela noite que vem
e querem a água que vai esfriar o dia quente no asfalto.
A velha louca pode enfim, na janela, o seu rosto refrescar.
E todos podem esquecer as palavras dos homens sérios e suas brigas cheias de razão.
E eu posso esquecer o meu pai. E eu posso esquecer o erro.
E eu posso esquecer o que eu preciso esquecer.
Estes pequenos momentos antes da chuva me enchem de vida e ela nem precisa cair.
Apenas o silêncio, apenas a quietude que ela impõe à cidade … isto me enche de prazer.
E eu estou sozinho, sem guarda chuva, sem para onde ir…"